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EDUCAÇÃO DE A a Z ( QUERO).

Como lidar com os desejos exagerados das crianças

EDUCAÇÃO DE A a Z ( QUERO). Todos os dias, os pais ouvem a famosa frase: “eu quero!” e, com o reforço da propaganda, fica ainda mais difícil fazer com que as crianças resistam às tentações de consumo.    “Os pais se endividam para suprir as vontades dos filhos e, muitas vezes, as crianças não acham mais graça depois que ganham o presente, pois veem que o objeto não supriu a sensação de felicidade prometida na propaganda”, explica a psicóloga Maria Helena Masquetti, do Projeto Criança e Consumo.   Muitas crianças, no temor de se sentirem excluídas de um determinado grupo, pedem, insistem e fazem birra até os pais acatarem o pedido - geralmente seguido da frase: “todo mundo tem, menos eu”. Nestes casos, é preciso verificar se não está havendo muita pressão do grupo de convívio para que ela consuma o que os outros têm.    Se a pressão estiver ocorrendo, é preciso conversar com seu filho e explicar que nem sempre tudo é possível, ou mesmo necessário, de ser comprado. No bate-papo, enalteça também as qualidades e habilidades da criança, procurando aumentar sua autoestima e segurança, para que não se sinta tão aflita por esses objetos.   Proteja seu filho do consumismo infantil Não é preciso isolá-lo em uma redoma para resistir aos impulsos do consumo. Negociação e diálogo são as atitudes mais recomendadas

No início de 2010, uma pesquisa mostrou que, de 411 pais de crianças entre três e 11 anos, aproximadamente 288 admitiram ser influenciados pelos filhos na hora de comprar . De acordo com Laís Fontenelle Pereira, coordenadora de Educação do pelo Projeto Criança e Consumo do Instituto Alana , a publicidade voltada para o público infantil é o primeiro fator de influência neste cenário. “As crianças de hoje já nascem inseridas nesta cultura de consumo e existe uma publicidade que fala diretamente com ela, que é o principal influenciador”. Depois da publicidade, vêm as embalagens dos produtos e, em terceiro, os personagens envolvidos com o produto, sejam eles famosos ou não.

O uso deste mecanismo na publicidade é recente. O mercado enxergou na criança uma consumidora em potencial, já que ela é capaz de influenciar familiares e colegas na escola. Marcos Nisti, produtor executivo do documentário “Criança, a Alma do Negócio”, que o diga. Segundo ele, as crianças começam a consumir muito mais cedo que antes, pois a sociedade de consumo invade o mundo delas: “Hoje, no próprio ambiente dela, a criança é respeitada pelo que tem, e não pelo que é”.

Dentro de casa e dentro da escola

Segundo pesquisas, as crianças influenciam até 80% das decisões de consumo da família. Além dos estímulos consumistas que chegam a elas pela televisão e entre os colegas de escola, outro fator, segundo Nisti, colabora em grande escala: a culpa dos pais por trabalhar em tempo integral. Eles sentem que devem compensar a ausência dando tudo que os filhos pedem. Estanislau Maria de Freitas, coordenador de Comunicação do Instituto Akatu pelo Consumo Consciente , concorda. “Como os pais passam muito tempo fora, a criança fica em casa mais vulnerável à publicidade”, diz, ressaltando que a regulamentação sobre a publicidade brasileira é bem pouco rígida se comparada à de países como Canadá, Holanda e Noruega, entre outros.

E a televisão não é o único meio de atingir as crianças. De acordo com Laís, que também ministrará o curso “Consumismo na Infância e o Brincar: pólos que não se atraem” no Centro de Estudos Educacionais Vera Cruz (CEVEC), em São Paulo, a partir deste mês, existem ações de marketing voltadas para o público infantil por todos os lados. É o chamado “marketing 360 graus” – e ele acontece até mesmo dentro das escolas: “Recebemos cada vez mais denúncias de marketing dirigido às crianças nas escolas, disfarçado de atividade pedagógica”, alerta Laís.

As instituições de ensino não devem permitir que a publicidade invada o espaço escolar. “A escola não é shopping center: ela tem uma função social”, afirma ela. Afinal, as consequências do consumismo infantil podem ir de mal à pior, incluindo a intensificação do bullying, se as crianças forem estimuladas a pautar suas relações sociais pelo que os colegas têm ou deixam de ter. “As crianças fazem grupos e discriminam outras por não terem determinados objetos, hoje tidos como ingresso social”, conta a especialista. E é preciso desconstruir essa lógica.

Publicidade como ponto de partida

Dentro de casa as consequências da superexposição à publicidade também são significativas e os pais podem acabar endividados por não conseguirem negar os desejos dos filhos. Pensando nisso, em 2001 o atual Secretário da Fazenda do Paraná Luiz Carlos Hauly apresentou um projeto de lei com o objetivo de proibir a publicidade destinada a crianças de até 12 anos. Hauly foi influenciado pelo ímpeto consumista do filho mais novo para a apresentação do projeto: “Descobri que na legislação da maioria dos países desenvolvidos existem restrições em relação à publicidade, pois os comerciais podem destruir muito do que a família e a escola fazem pela criança”. O projeto ainda está para ser votado em plenária.

O Secretário sugere que a influência publicitária sobre as crianças, que associa o “ter” ao “poder”, se relaciona até à criminalidade. “Quando as crianças de periferia chegam por volta dos 13 anos, elas vão buscar o que lhes foi negado. Isso é um indutor de violência e marginalidade”. Para ele, a questão do consumismo infantil não é apenas responsabilidade dos pais, mas dever do Estado e da sociedade – onde também se situam as emissoras de TV. “O primeiro passo, portanto, é eliminar a publicidade voltada às crianças”, completa.

Enquanto isso não acontece, os pais têm uma árdua missão: proteger os filhos do consumismo desenfreado. A empresária Vera Menezes, de 55 anos, tira a tarefa de letra desde o primeiro filho. Hoje ela é mãe de quatro e os dois mais novos já se habituaram aos combinados com a mãe. Rafael, de nove anos, sabe bem que fast-food só é permitido uma vez por semana – e olhe lá. “Eu explico porque não pode exagerar e, dentro da cota dele, ele entende e respeita”. Se deixasse, Vera acredita que ele comeria em lanchonetes todos os dias.

Pedro, de 14 anos, já se policia sozinho. Ele juntou dinheiro da própria mesada para comprar um videogame novo e dar ou vender o antigo. Vera coíbe excessos e desperdícios deixando muito claro que dinheiro não se encontra na rua e ensinando os filhos a dar uso a brinquedos substituídos por modelos mais novos. “Eles têm muita compreensão disso”, afirma. E de reutilização dos produtos também. Quando o mais velho tem uma chuteira ou outra peça em boas condições que não serve mais, ela é passada para o caçula. “Eles sabem que não precisa ter sempre uma chuteira nova, algo sem necessidade”.

Vera vê em Rafael, o filho mais novo, os reflexos do estímulo ao consumo. Mas define este querer como muito passageiro: “Ele quer tudo que vê, mas quando a gente diz “não”, ele assimila”. A mãe controla o tempo de televisão do filho. No caso de Pedro, o mais velho, a coisa muda de figura: ele é mais influenciado pela própria tribo. “Na turma dele, todo mundo costuma usar o mesmo tipo de roupa”, conta. Pedro é mais ligado às marcas do que os outros filhos: “Ele prefere ter menos roupas, mas das marcas que ele gosta”.

No ano passado, quando foi com os filhos para a Disney, Vera estipulou um valor proporcional à idade para cada um administrar. “Tudo que eles queriam tinha que estar dentro dessa cota, e todo mundo cumpria com o combinado”, explica. De acordo com Vera, o combinado acabou virando também uma brincadeira. Estabelecer acordos não é fácil, mas vale a pena. “É uma coisa que dá trabalho aos pais. Você precisa parar, sentar, conversar, gerar um significado e uma cumplicidade, e isso desde que eles são pequenos. Mas é algo para a vida inteira”, completa.

O poder do exemplo

Para Laís, o diálogo é a chave da transformação. Além dele, o exemplo é fundamental. A máxima “faça o que eu digo, não faça o que eu faço” não funciona com as crianças. Segundo Estanislau, do Instituto Akatu, é preciso dar o exemplo na prática. Não adianta sair com o filho para ir ao cinema e, depois da primeira vitrine, sair da loja cheia de sacolas. “Pai e mãe também precisam estar conscientes do próprio consumo”, diz ele.

Com isso, fazer combinados com os filhos em relação às compras e limitar o número de horas na frente da televisão – assim como Vera faz – se tornam os primeiros passos para diminuir o consumo dentro de casa. Marcos sugere o estímulo ao brincar, principal fonte de inspiração para formar cidadãos melhores, mais criativos e conscientes. E saber dizer “não” aos pequenos é fundamental – sempre explicando as razões, mostrando o valor do dinheiro e resgatando o significado das datas comemorativas, geralmente usadas para incitar ainda mais o consumo.

Estanislau sugere que o melhor exercício de educação para o consumo é consumir com responsabilidade junto aos filhos. Quando pai e filho forem ao mercado, por exemplo, mostrar o quanto se paga num produto, de onde ele vem e como é feito, entre outros fatores, são boas formas de ensinar ao filho o valor daquilo. “O papel dos pais é ensinar os filhos a se relacionarem de outra maneira, que não a atual, com o mundo de consumo”, diz.